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Texto e fotografia de Juliana Barreto

"ARDEU TUDO": PONTE DA BARCA NOS OLHOS DE QUEM RESISTIU

As chamas destruíram casas, campos, animais, armazéns. O fogo passou, mas deixou marcas que o tempo dificilmente apagará. Joaquim Santos, que viu arder o trabalho de uma vida, tenta reconstruir o que perdeu. Tiago Martins, bombeiro, lutou para travar as chamas que tudo ameaçavam. Entre perdas e esperança, ambos recordam as semanas em que a terra queimou, mas não cedeu.

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A estrada de acesso à aldeia de Parada, na freguesia de Lindoso, em Ponte da Barca, eleva-se em direção à montanha, descrevendo curvas ora acentuadas, ora mais suaves. Esta sinuosidade, no entanto, perde relevância face ao caráter imponente da paisagem que a envolve."

Aproxima-se o meio-dia e Joaquim Santos percorre este caminho tortuoso em direção a sua casa. Depois de uma manhã de sábado passada a trabalhar, o homem de 55 anos chega finalmente ao seu lar, acompanhado por um colega de trabalho. Antes de abrir o portão, retira o saco que o padeiro lá tinha deixado, ao amanhecer.

Joaquim entra, então, na sua moradia, que é cercada por árvores, muitas das quais queimadas. São as sequelas do fogo que consumiu Ponte da Barca este verão. O incêndio teve início na noite de 26 de julho, um sábado, em Parada, precisamente. As chamas não deram tréguas e depressa se espalharam para as aldeias da Ermida e de Sobredo, que pertencem à União de Freguesias de Entre Ambos-os-Rios, Ermida e Germil.

O fogo apenas foi dado como extinto a 4 de agosto e queimou uma área total de 7550 hectares, uma extensão comparável a mais de 10 mil campos de futebol. Grande parte da área do Parque Nacional da Peneda-Gerês, incluindo a Serra Amarela e zonas circundantes do concelho de Ponte da Barca, foi consumida pelas chamas. O pico do incêndio mobilizou mais de 600 operacionais e seis meios aéreos. Armazéns agrícolas, palheiros, áreas de pasto, animais, não escapou nada - e os bens de Joaquim, que, além da profissão de serralheiro, trabalha com gado, não foram exceção.

​O habitante de Parada recebeu a notícia de que estava a arder na aldeia enquanto participava nas festividades em honra de Santa Maria Madalena. Nessa noite, o fogo acalmou, acabando por baixar a guarda dos habitantes. Mas este sentimento de falsa segurança não durou.

No dia seguinte, as chamas voltaram a manifestar-se, reacendendo nos eucaliptos que rodeiam a casa de Joaquim. “O pessoal que estava aqui perto ligou-me - ‘olha que já há projeções para o lado daqui, estica mangueiras’. Comecei a esticar mangueiras, já estava o fogo perto de onde tinha o gado, ao lado da casa”, confessa. “Ah, bonito. Quando nos inteiramos que passou daqui para cima... foi num ápice".

"Foi tudo muito rápido, nem dez minutos, sequer".

Alimentado pelo vento, o incêndio passou para o lado da estrada onde o serralheiro mantinha os animais. A tentativa de os salvar em primeiro lugar foi em vão, devido à quantidade de feno que envolvia as propriedades. “Tentámos salvar aí. Não deu, então fomos tentar salvar a minha casa, porque o fogo já batia nas paredes”, lamenta o homem da serra.

Relativamente ao trabalho desempenhado pelos corpos de bombeiros, Joaquim defende que estes fizeram o que podiam, embora prejudicados pela ineficácia das entidades responsáveis pela coordenação do incêndio. Tiago Martins, que combateu o fogo na linha da frente, confirma os problemas enfrentados no terreno. O bombeiro barquense recorda que “as maiores dificuldades foram a violência e a dimensão que as chamas atingiram, devido à alta temperatura, ao relevo acentuado, à vegetação muito densa e à baixa humidade”.

Tiago tornou-se bombeiro voluntário aos 18 anos e, desde então, não abandonou o ofício. Depois de dez anos, admite nunca ter combatido um fogo tão agressivo. “A nossa estratégia, inicialmente, foi atacar diretamente o incêndio. Depois passamos para uma tática defensiva, para proteger a vida e os bens da população.”  

Com um olhar angustiado, Joaquim fita a sua casa, relembrando a aflição de a tentar salvar. “Tive muita ajuda. Vizinhos, amigos, família. Mas não valeu de nada. Ardeu tudo”. Estas palavras refletem, igualmente, o desespero do lado operacional da tragédia. Tiago conta que uma das maiores adversidades encontradas pelos bombeiros foi a coordenação entre todas as equipas, uma vez que “eram muitos meios no terreno e nem todos conheciam bem a zona”.

"tive muita ajuda, vizinhos, amigos, família. Mas não valeu de nada. Ardeu tudo".

O momento mais crítico do incêndio, para o bombeiro, ocorreu quando, ao tentar proteger habitações e retirar pessoas em risco, ele e parte da sua equipa ficaram cercados pelas chamas. O calor intenso, o fumo denso e a falta de visibilidade tornaram a situação quase insustentável, num cenário de preocupação e perigo real.

Situações como esta tornaram evidente a dificuldade em evacuar as pessoas de casa em segurança. Muitas, sobretudo as de idade avançada, recusavam-se a sair, atrasando o processo de evacuação e colocando em risco a própria segurança e a dos profissionais de socorro. Esboçando um leve sorriso, Joaquim admite que, durante os dias em que se refugiou na casa de amigos e familiares, se aventurou, ocasionalmente, a regressar à própria residência. 

"para ir a casa? eu ia, de vez em quando. a gnr não me queria deixar passar, mas eu forçava a barra".

As idas a casa também foram escassas para Tiago. O operacional explica que gerir o cansaço físico e emocional foi um desafio constante, mas necessário. “Tive de controlar as minhas emoções, pensar positivo e desviar o stress, sendo que para estar bem fisicamente também o tinha de estar mentalmente”. Não descurando que “a cabeça tem de comandar o físico”, o bombeiro salienta, ainda, que a preparação física é fundamental para que o corpo resista às exigências da profissão.

Após refletir acerca dos contratempos que encarou, Tiago Martins pensa sobre como o desastre podia ter sido prevenido. Na sua opinião, uma vigilância mais intensa nas zonas de risco, uma maior disponibilização de meios de apoio, a atribuição de penas mais radicais para os incendiários e a reflorestação com espécies de vegetação menos inflamáveis são medidas fundamentais para evitar que os incêndios atinjam estas dimensões. Apesar de não ser confirmado, para o morador de Parada, o incêndio resultou de fogo posto, pelo que, à semelhança do bombeiro, defende penalizações rigorosas para os responsáveis.

Enquanto Tiago pondera como evitar novas tragédias, Joaquim ainda lida com as consequências da última. Para ajudar com o prejuízo de mais de 35 mil euros, diz ter recebido pequenas ajudas por parte de várias entidades, nomeadamente da Câmara Municipal de Ponte da Barca, que se materializaram no fornecimento de feno, animais e ração.

 

O serralheiro candidatou-se, inclusive, ao apoio providenciado pelo Governo. Ainda assim, é improvável que consiga reaver o valor perdido, já que o seu prejuízo ultrapassa os 10 mil euros e não dispõe de comprovativos. "Não tenho faturas. Tudo o que tenho fui fazendo eu. Um ano um bocadinho, no outro mais um bocado". 

Além das perdas materiais, o incêndio deixou marcas profundas em Joaquim. Com um olhar cabisbaixo, lembra as sequelas deixadas pelas chamas. “Ainda tenho uma toura bastante queimada de um lado. Não sei se vai recuperar", reclama. "Mas é assim...vamos vivendo um dia de cada vez".

Com o objetivo de proteger os solos e garantir alimento a estes animais, que perderam o seu pasto natural, a autarquia de Ponte da Barca, o Instituto de Conservação da Natureza e das Florestas e outras entidades, como a Comunidade Local dos Baldios de Britelo, estão a apostar no uso de drones para sementeiras de pastagem. Segundo um comunicado da autarquia, estas sementeiras têm como objetivo principal “recuperar os ecossistemas afetados pelo fogo, promovendo a cobertura vegetal e prevenindo a erosão dos solos” e, ao mesmo tempo, “ajudar a garantir alimento para os animais”.

De qualquer forma, o jovem bombeiro alerta para a urgência de reforçar a prevenção, no sentido em que os fogos são cada vez mais violentos e imprevisíveis, reflexo de um clima em mudança e de uma floresta cada vez mais vulnerável. O homem da serra, por sua vez, olha para o que restou com a serenidade de quem perdeu muito, mas não tudo.

Joaquim recusa deixar que as chamas apaguem o vínculo que mantém com o lugar onde vive há 45 anos. Afinal, como diz, “o lugar não teve culpa”.

Texto e fotografia de Juliana Barreto

Universidade do Minho

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